Georgieva é a Alemanha na ONU

Ameaçaram e cumpriram: a apenas alguns metros do final da corrida, eis que entra na contenda outro concorrente à secretaria-geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Neste caso, uma concorrente, e do Leste europeu – as duas características-chave escolhidas este ano como determinantes para o cargo. A candidatura de Kristalina Georgieva é mais do que uma bomba que rebentou tardiamente. É um passaporte forjado pela Alemanha para uma instituição que sempre lhe cerrou as portas.

Fundada em 1945, após o fim da Segunda Guerra Mundial, a ONU mantém 71 anos depois o anacronismo da supremacia dos vencedores da guerra, espelhada nos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança (China, Estados Unidos da América, França, Reino Unido e Rússia) com direito de veto – o que faz destes países exclusivos e hegemónicos e da ONU uma organização facciosa, antidemocrática e que menospreza a legitimidade das demais nações do mundo. Humilhada pelo Tratado de Versalhes depois da I Grande Guerra, o que em muito contribuiu para que houvesse uma segunda guerra, a Alemanha carrega indisfarçavelmente até aos dias de hoje a estigmatização da derrota. Apesar de ser reconhecidamente uma das maiores potências mundiais, quer a nível económico quer diplomático, o clube exclusivo do Conselho de Segurança permanente continua vedado para a nação germânica. Por isso, a chanceler Angela Merkel, que já conseguiu transformar a União Europeia (UE) à sua medida, dá agora o passo para pôr o pé no centro de decisão da ONU.

Kristalina Georgieva não é a candidata das nações do mundo. É uma candidata de fação. É o fantoche que Merkel quer sentar na ONU como posto avançado dos interesses alemães. E como já tem a UE a seus pés, não foi difícil condicionar esta instituição a apoiar Georgieva. Jüncker, que tem movido uma campanha sem precedentes para castigar Durão Barroso pelo seu emprego no Goldman Sachs, vem agora anunciar benevolamente que concederá uma licença sem vencimento à comissária, quando o código de conduta da Comissão Europeia proíbe a candidatura de comissários a outros cargos. Será interessante ver como reagirá a Rússia a esta manobra. As crescentes tensões dos últimos anos entre Putin e o Ocidente, patentes mais do que nunca no conflito da Síria, não podem continuar a ser escamoteadas. A realidade de uma nova guerra fria já chegou, não tanto assente na disputa do nuclear e da conquista do Espaço como outrora, mas sem dúvida orientada para o domínio geopolítico, em primeiro lugar do Médio Oriente. É por isso que a guerra da Síria tem despertado tantos interesses e é tão difícil de resolver – e poderá bem transformar-se num atentado de Sarajevo do século XXI que dê origem a uma terceira guerra mundial. É por isso extremamente importante que os países saibam ler este momento e apoiem um candidato isento e representativo de todos e não um candidato que represente uma determinada fação.

Kristalina Georgieva parte fragilizada pela polémica que a sua candidatura suscitou. Numa fase em que todos os outros candidatos foram submetidos a audições e a votações que levaram alguns a desistir, a sua candidatura é incompreensível e moralmente inaceitável. Como disse Francisco Pinto Balsemão, é “batota”. Porém, não é ilegal, por força da nebulosa de falta de transparência em que a ONU está imersa. Num processo em que o requisito mérito surge depois da nacionalidade e do género, percebe-se bem que estamos, e sempre estivemos, perante um jogo de interesses políticos. A diplomacia portuguesa tem feito um excelente trabalho em torno da candidatura portuguesa, promovendo um apoio veemente mas discreto. Guterres é o candidato mais bem classificado e o único que reúne o número de votos de encorajamento (pelo menos nove) necessários à permanência na corrida – portanto, nada há aqui de impasse, como tentaram alegar os apoiantes de Georgieva. Incompreensivelmente, o excelente percurso de Guterres não significa nada. Basta o veto de um dos cinco países privilegiados para dificultar muito as coisas ao português. É um toque de Orwell na Organização das Nações Unidas. E é todo o mundo que sai a perder.

Já há muito se constatou a ineficácia da ONU na resolução de grandes problemas e conflitos mundiais. A ONU necessita urgentemente de se renovar; não pode continuar a existir neste anacronismo que exclui a Alemanha derrotada e atribui mais direitos a uns países do que a outros. Medidas tão simples como um país um voto e um prazo definido para a entrega de candidaturas à secretaria-geral tornariam tudo muito mais transparente e democrático. Caso contrário, a ONU será vítima de si própria e soçobrará, tal como sucedeu à sua antecessora Liga das Nações. 

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