Para onde nos leva Trump?

Choque, consternação, surpresa – são palavras que descrevem o sentimento geral do mundo quando acordou no dia 9 de Novembro e viu que a presidência do país mais global do ponto de vista político, económico e militar tinha sido entregue a Donald Trump. Não é que fosse impossível, as sondagens diziam-no – mas também diziam que podíamos ter esperança. Parece digno de uma grande produção de Hollywood, mais uma sobre a terra onde acontecem as coisas mais insólitas, como naves extraterrestres estacionadas sobre o planeta, uma invasão por pequenos monstros chamados Gremlins ou até um comediante eleito para a Casa Branca. E agora, Trump como presidente. Que tempos são estes que nos trouxeram aqui? E para que tempos nos levarão?

Donald Trump é o mais xenófobo, o mais misógino, o mais mentiroso, o mais incorreto e o mais impreparado candidato que os EUA deram a conhecer ao mundo. Com tantas críticas, caricaturas e chacotas de que foi alvo, vindas dos cinco continentes, custa a crer que tenha sido ele o escolhido pelos norte-americanos para ser o próximo presidente. Ou talvez não. Já disse aqui no Espaço Liberdade que Trump não existe por si próprio. Ele existe e vence eleições porque as pessoas querem. Porque hoje deseja-se mais dinheiro, mais emprego, mais tecnologia, mais prosperidade. O bem individual arrasa o bem comum. O egocentrismo afunda a humanidade, a solidariedade e os valores políticos e sociais. Bastou ao magnata acenar com promessas de prosperidade económica e de enaltecimento do orgulho nacionalista para reabilitar o velho sonho americano e convencer aqueles que vivem iludidos na superficialidade das coisas imediatas. Tão iludidos e tão desiludidos que os imigrantes nem ouviram quando Donald vociferou que iria expulsar os ilegais e seus familiares, os hispânicos não ouviram falar da construção de um muro na fronteira com o México e as mulheres fingiram não ouvir os comentários sexistas e humilhantes para o seu género.

O discurso de Trump foi o que os eleitores queriam ouvir. Este foi o grande mérito da sua tática. Um mérito que contrastou com a estratégia da experiente e preparadíssima Hillary Clinton. O candidato avaliou bem o seu eleitorado. Devíamos ter percebido isso quando ele disse que podia ir pela rua e alvejar pessoas que mesmo assim as pessoas votariam em si.

Após o primeiro abalo, o choque, consternação e surpresa começam rapidamente a dar lugar à incerteza. O que esperar da administração Trump é a pergunta a que o mundo tenta agora responder. Não lhe é conhecida obra na coisa pública (mas tem vasta obra privada em proveito próprio). Não tem uma carreira política. O debate durante a campanha foi o que costuma ser nos EUA: um arremesso de sound bites vazios de propostas. Mas o que vimos de Trump não foi bonito. Por isso, há razões para inquietação. Mas talvez não para medo. O Brexit mostrou-nos que os cidadãos, de uma maneira ou de outra, habituaram-se a conviver com acontecimentos que há umas décadas atrás nos pareceriam impensáveis e catastróficos. Tal como nessa altura não se deu uma fuga dos imigrantes do Reino Unido nem o pânico dos Mercados, também a eleição de Trump não se revelou uma Black Tuesday; na quarta-feira as bolsas registavam já alguma recuperação, ainda que muito tímida.

Apesar de todas as medidas avulsas que Donald Trump anunciou, arrisco dizer que talvez não execute nem metade. Pela mesma razão que Obama se viu coartado em várias reformas que tinha prometido. Apesar de o presidente norte-americano ser um, ele não é um homem só. O seu poder é regulado pelos outros órgãos de soberania: Câmara dos Representantes e Senado, que compõem o Congresso. É certo que Trump conta com uma maioria republicana nos dois (que dificultou muito a vida a Obama), mas muitos republicanos opõem-se declaradamente às ideias do presidente eleito e poderão funcionar como força de bloqueio ou, se quisermos, moderadora. Além disso, muitas das medidas aventadas durante a campanha não são passíveis de passar à prática e por essa razão não as explicou. Trump até pode mandar contruir um muro na fronteira com o México, mas não pode obrigar os mexicanos a pagá-lo. Outras medidas são em si contraditórias. Por exemplo, se aplicar uma redução geral de impostos (incluindo o IRC para 15%), como financiará a reabilitação de infraestruturas (escolas, estradas) que pretende fazer? E como pensa relançar a economia americana se rasgar os acordos comerciais internacionais?

Contudo, é a política externa que mais incertezas traz. Donald Trump parece ter uma visão demasiado simplista das relações internacionais e coloca toda a tónica na política dentro de portas. É possível que os EUA enveredem pelo isolacionismo, o que, por um lado, afastá-los-á dos cenários de conflito mundial que alimentam, mas por outro impedirá a sua participação necessária na resolução das várias crises humanitárias e políticas que assolam atualmente o planeta. A anunciada política anti-islâmica vai certamente azedar as já difíceis relações com essa parte do mundo. Quanto à Rússia, apesar de parecer existir uma espécie de acordo de não hostilização entre Trump e Putin, o futuro das relações entre os dois países é uma incógnita e tanto pode apaziguar ou despertar o fantasma da guerra fria, se algo fizer sobressair o nacionalismo do presidente americano. Além de que deixará o presidente russo com muito pouca oposição efetiva.

Se Donald Trump foi alvo da chacota mundial durante a campanha, agora é símbolo dos tempos incertos. Prevejo que António Guterres não terá vida nada fácil na ONU. Mas precisamente este seria o tempo de a ONU e a Europa estarem vigilantes, pois poderão ser o garante de estabilidade e integridade mundial. Se os seus líderes fossem capazes de se afirmar.

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